16/04/2026

Luzes do Norte: a experiência de vê-las pela primeira vez e por que a espera compensa

Luzes do Norte: a experiência de vê-las pela primeira vez e por que a espera compensa

Olá!

Meu nome é Fernando Massa. Vivo na cidade de Buenos Aires, na Argentina, a mais de 11.000 km da Islândia. Sou jornalista e roteirista. Na escrita encontrei o lugar onde se cruzam meu olhar sobre o mundo e minha vocação para contar histórias. Desenvolvo projetos de roteiro e também sou professor — espaços nos quais continuo explorando novas formas de narrar. Mas meu território natural são as crônicas, e especialmente as de viagem: relatos onde a experiência se transforma em história.

Ao longo desses anos, conheci diferentes cantos do mundo (incluindo a Antártida!), mas há um destino que marcou um antes e um depois na minha vida: a Islândia. Desde então, um postal com o seu mapa me acompanha todos os dias na minha escrivaninha, como um lembrete do quão maravilhoso pode ser este planeta e a intenção de nunca parar de explorá-lo.

Há viagens que se planejam em torno de uma atração natural, de uma cidade ou da gastronomia local. E há outras que se constroem em torno de um fenômeno. Na Islândia, as auroras boreais funcionam como esse ímã que organiza itinerários, expectativas e até estados de espírito. Porque, claro, não é algo que se possa garantir: não há horários nem certezas. Apenas probabilidades, paciência e, algo fundamental, o céu aberto. Talvez por isso sejam mais do que uma atração — são uma experiência. E uma experiência que nunca se esquece.

No meu caso, o espetáculo com todo o seu esplendor se fez esperar. Chegou apenas na última noite de uma viagem de doze dias.

A noite mágica

As previsões meteorológicas indicavam um índice alto para aquela noite de meados de setembro. Isso foi confirmado por Jimmy Salinas, da Descubre Islandia, nosso guia naquela noite mágica. Ele já havia escolhido o cenário perfeito para a caça às auroras: o Parque Nacional de Thingvellir, a cerca de 45 minutos de Reykjavík. Um lugar por si só imponente, com caminhos que cruzam rachaduras e fissuras abertas na rocha vulcânica, com passarelas que margeiam rios e cachoeiras, e onde foram filmadas cenas da quarta temporada de Game of Thrones.

Longe da cidade, a escuridão era absoluta. A temperatura rondava zero grau.

E de repente, o céu.

Primeiro tímido. Um verde iridescente que aparecia, se apagava, voltava. Depois mais decidido: lampejos que se estendiam, se deslocavam, como se alguém estivesse pintando em tempo real. "Uau", repetia-se no grupo. "Não acredito, olha aquilo." Em determinado momento, uma espécie de coroa esmeralda se abriu sobre nossas cabeças, como um portal. Os feixes de luz se multiplicaram e se recortaram atrás dos penhascos. Ao fundo, só se ouvia o rumor constante da água e os cliques das câmeras fotográficas.

O show durou uns vinte minutos. Se apagou. E, pouco depois, voltou a começar.

"As auroras são como um pôr do sol", Jimmy me disse. "Sempre são diferentes, sempre mudam. É só ter paciência, esperá-las."

O que mais me impressionou nas auroras boreais foi o seu dinamismo. Ver como em segundos se acendem, se apagam, se deslocam, voltam a aparecer. É um fenômeno vivo. E nesse movimento constante há algo hipnótico.

Já de madrugada, quando muitos já tinham subido ao ônibus aguardando o regresso, decidi me afastar um pouco. Queria estar sozinho. Com a câmera, um pouco de vento, olhando para o norte. A Ursa Maior bem definida, e uma tênue aurora se formando de vez em quando. Foi um momento de contemplação absoluta. Um daqueles momentos inesquecíveis.

Fui embora repleto. Com a consciência de ter vivido algo extraordinário.

O que são as auroras boreais?

Lembro que a primeira vez que vi uma aurora boreal foi há muitos anos num filme espanhol chamado Los amantes del círculo polar. Há uma cena memorável em que o casal contempla uma aurora verde brilhante que atravessa o céu. Naquele momento nunca imaginei que as veria com meus próprios olhos nem que chegaria a entender cientificamente o que são e por que se originam.

Digamos que, em essência, as auroras boreais são a manifestação visível do chamado clima espacial. Ocorrem quando partículas provenientes do Sol viajam pelo espaço e alcançam a Terra. Nosso planeta é protegido pela magnetosfera, um escudo de campos magnéticos que desvia grande parte desse vento solar. No entanto, nas regiões próximas aos polos, essas partículas conseguem penetrar e colidir com a atmosfera, especificamente na ionosfera, entre 40 e 120 quilômetros de altitude.

Quando isso acontece, os átomos presentes — principalmente oxigênio e nitrogênio — se excitam e liberam energia em forma de luz. Essa luz é o que vi: a aurora. A cor, que pode ir mudando, depende do tipo de átomo e da altitude: o verde, o mais comum, vem do oxigênio; os tons vermelhos, azuis ou violetas, do nitrogênio.

A intensidade e a frequência das auroras também estão ligadas ao ciclo de atividade solar. Em momentos de maior atividade, as probabilidades aumentam. Ainda assim, duas condições se reuniram para mim naquela noite no parque Thingvellir: escuridão e céu aberto. Por isso o inverno na Islândia é ideal para encontrar auroras boreais. E vale ter no celular aplicativos que permitem acompanhar a atividade solar e antecipar possíveis aparições.

Um universo de lendas

Na Islândia, cada fenômeno natural tem sua própria lenda. Durante séculos, as auroras boreais foram interpretadas como sinais, avisos ou presenças. Espíritos dançando no céu. A cauda luminosa de uma raposa ártica cruzando a neve. Promessas de pesca ou presságios de tempestade.

Hoje sabemos exatamente como se produzem. Podemos medi-las, prevê-las, fotografá-las. E, no entanto, quando aparecem, algo dessa magia permanece intacto. Talvez porque a Islândia não possa ser reduzida a uma explicação. E as auroras são apenas uma porta de entrada para um universo único no planeta.